ENTREVISTA


Ex-Even, Terepins mira mercado residencial
de alto padrão

Nortis, nova incorporadora do empresário, tem São Paulo como foco. VGV esperado para 2018
é de R$ 700 milhões.

GIOVANNA CARNIO


01/10/2018

Carlos Terepins,

fundador da Nortis e ex-CEO da Even

Carlos Terepins está de volta à ativa. O longo período como CEO e acionista da Even ficou definitivamente para trás e seu foco agora é a Nortis Incorporadora e Construtora. A nova companhia surgiu como uma startup, mas de novata não tem nada: recebeu de cara uma bagagem de décadas de experiência no mercado imobiliário e uma estrutura de capital robusta.


Nesta entrevista, Terepins fala dos seus planos, do foco em residenciais de alto padrão na capital paulista, da parceria com a Hemisfério Sul Investimentos (HSI), do momento do setor imobiliário e dos impactos das eleições sobre os negócios.


GRI Hub


Como descreve a sensação de iniciar a esta altura da sua vida um negócio do zero, a Nortis?


O recomeço atendeu a uma necessidade interna de voltar a estar na ativa. Apesar de não ter havido uma premência do ponto de vista patrimonial ou de ganhos lastreando ou motivando meu retorno, a realidade é que passei praticamente 40 anos nessa vida de projetos e parcerias, e me julgo ainda em plena capacidade de exercer esse tipo de atividade. Assim que, durante 2016, venci aquele período difícil de afastamento da companhia que eu havia fundado [Even], avaliei estar em condições, juntamente com meu filho [Fábio Terepins], de edificar um novo projeto.

Quais as principais diferenças da nova empresa em relação ao que você realizou no passado?


Trata-se de uma nova fase. É um projeto que se diferencia do anterior pela ausência de pressões trimestrais por resultados, na medida em que, por definição, não ingressa no mercado de capitais.

A companhia deve, então, seguir com capital fechado como premissa básica?


Está sendo construída dessa forma. Essa, aliás, é a forma em que mais acredito. Estamos escrevendo uma história de uma maneira original, sem as amarras do passado e as imposições de investidores muito ansiosos por ganhos de curto prazo.

Terepins em participação no

GRI Residencial 2018

Carlos Terepins em discussão

do GRI Residencial 2017

Pode-se dizer que o ritmo da Nortis será fortemente ditado pelo seu?


É preciso ter essa preocupação. Estamos criando um novo projeto, respeitando nosso timing, em particular o meu, e o do mercado. Havendo condições de expansão, podemos acelerar um pouco mais. Se o mercado se mostrar mais retraído, temos condições de andar mais devagar. O número de projetos e sua vocação podem ter uma maleabilidade muito maior do que numa companhia aberta. Em síntese, o tamanho da empresa será ditado pela minha capacidade e a da minha equipe de saber olhar cada projeto em um nível extremamente detalhado e cuidadoso, o que, numa companhia aberta, como vivi no passado, não é possível. Essa é uma característica da qual, nesse meu retorno, não abro mão.

O foco estará sempre em São Paulo capital?


Sim. Esse é outro privilégio que tenho na minha retomada, de poder escolher onde vou atuar de maneira livre até porque, depois desses anos todos, tenho absoluta crença de que o negócio de real estate é, por definição, local. Ademais, São Paulo é um grande mercado brasileiro e seu contraste com as outras regiões aumentou.

Os empreendimentos da Nortis serão exclusivamente residenciais de alto padrão?


Médio-alto e alto padrão. Fizemos uma escolha programática: São Paulo, projetos diferenciados e bairros especiais [a companhia tem obras em andamento ou empreendimentos a ser lançados brevemente em bairros como Moema, Vila Mariana, Vila Madalena, Pinheiros, Itaim e Jardins].

Como vê as novas tendências do mercado residencial, como coliving, student housing e senior housing? São negócios que passam pelos seus planos?


Esse é um debate vivo. Se nos ativermos somente ao que ocorre no mercado americano, francês ou alemão, podemos ser induzidos a erros. Não quero ser refratário a inovações e novas realidades, mas elas têm de ser temperadas [com nossas especificidades]. Predomina no Brasil ainda uma cultura patrimonialista. As pessoas querem ter a propriedade e, em determinados segmentos, especialmente em média, média-baixa e baixa rendas, essa preocupação é até maior. Dado que o sistema de aposentadoria e segurança social no País é muito precário, o imóvel na velhice passa a ser a proteção do cidadão. Isso não é comparável a outras sociedades. Adicionalmente, nas camadas mais privilegiadas, continua existindo um movimento em relação à aquisição de imóveis porque é ali que o indivíduo coloca suas obras de arte, personaliza o ambiente, e isso só vale a pena se o imóvel for próprio.

Sua postura neste momento, então, é de observação...


Vejo que há oportunidades, mas em um processo mais lento. Existem modelos novos que não foram suficientemente testados. Os anos vão dizer como esses empreendimentos vão se comportar.

Vê espaço para atuar em algum outro segmento imobiliário?


O foco da Nortis é o residencial. Em paralelo, poderemos, em empreendimentos de uso misto [há hoje projetos residenciais da empresa que contemplam essa característica no térreo], desenvolver algo de comercial e serviço. Contudo, o alvo companhia não é fazer imóveis corporativos, hotéis ou shopping centers.

Como se deu a parceria da Nortis com a HSI? Há colaborações com outros fundos em negociação?


Temos uma parceria com a HSI, mas não de absoluta exclusividade entre ambas as partes, e sim a nível de projeto. Já estabelecemos também acordo com outro fundo [Grupo Catuaí] em dois outros projetos.

Que números prevê para a Nortis em 2018?


"Serão aproximadamente R$ 700 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV bruto). Para 2019, já existem projetos e estamos negociando vários terrenos."

No começo deste ano, percebia-se entre os empresários e investidores do setor imobiliário um ânimo revigorado, como inclusive indicou o Termômetro do GRI. Logo depois, vieram turbulências variadas, somadas às características deste ano atípico, com Copa do Mundo e eleições. Como você sente o mercado neste momento?


Observo que o otimismo inicial dos empresários se desacelerou enormemente nos últimos meses. Sinto que os imóveis para baixa renda têm um comportamento melhor, considerando que se trata de um público muito carente de moradia e menos sensível à sofisticação de informações políticas, sociais e econômicas. Já os empreendimentos de média-alta e alta rendas estão experimentando uma cautela enorme.

Mesmo assim, você está lançando diversos empreendimentos...


Quem lida com nossa atividade não tem como interromper abruptamente os processos ou, pelo menos, não ir se preparando para lançamentos. Evidentemente, se o resultado eleitoral for favorável ao mercado e à confiança do consumidor, as empresas querem estar prontas para colocar seus produtos no mercado. Por isso, nos preparamos, apesar do ambiente de incerteza. A cada quatro anos, querendo ou não, temos Copa do Mundo e eleições. Acho que a Copa do Mundo não é um fator determinante [para o desempenho dos negócios]. Se a situação econômica e o horizonte político estivessem bons, ninguém deixaria de comprar apartamento por isso. Entretanto, num ambiente turbulento, ela serve como pretexto e distração para o indivíduo se desviar de decisões mais difíceis.

O Brazil GRI 2018 acontece em novembro, logo após o segundo turno das eleições. Espera discussões relevantes?


Não tenho dúvidas. Se for eleito um candidato [à Presidência da República] com pauta reformista e arejada, que traga investimentos, um dos primeiros setores a sentir isso será o imobiliário. E tomara que o setor assimile as lições do passado, tentando formular um crescimento ordenado de acordo com as capacidades e possibilidades, sem sair num sistema desenfreado de lançamentos porque, mais cedo ou mais tarde, terá problemas. O mercado imobiliário, sim, pode experimentar uma melhora em função da eleição de um presidente com vocação mais estadista e visão mais aberta, mas, evidentemente, é importante que o País se desenvolva de uma maneira sólida e ataque em definitivo a questão da educação, da saúde, da racionalidade dos gastos e de extermínio da corrupção. Apenas numa sociedade verdadeiramente estruturada nosso setor vai encontrar estabilidade para estabelecer planos a longo prazo. Caso contrário, viveremos numa gangorra eterna.

Como tem sido sua participação no GRI Club?


O GRI proporciona uma troca [de experiências] de forma muito profissional e adequada, pois possibilita o lado expressivo do empresariado e de executivos do setor.

Fotos: Mario Miranda Filho, Envato e Unsplash

BRAZIL
GRI 2018


Já em sua nona edição, o Brazil GRI está consolidado como o principal evento do setor imobiliário no País. Serão dois dias de programação intensa, proporcionando networking de alto nível e discussões sobre os temas mais importantes para a evolução dos negócios e do mercado. Saiba mais sobre a programação e como participar clicando no botão abaixo.